quinta-feira, 17 de março de 2011

Giordano Bruno e Galileu Galilei, duas páginas na história

Céu
     
      Sem a intenção da afronta por parte de qualquer corrente filosófica ou religiosa, mas apenas com a intenção de expor os fatos incrustrados na história, coloco de forma sintetizada a história de homens que sofreram a discriminação e perseguição em suas vidas, apenas por estarem, à época, muito a frente de seu tempo. Chamando todos a uma pausa para a reflexão do nosso cotidiano a respeito de nossos preceitos e preconceitos que nos envolvem. 
      Giordano Bruno (1548 - 1600) e Galileu Galilei (1564 - 1642) foram dois italianos contemporâneos à segunda metade do século XVI. Por contestarem e romperem com a filosofia do grego Aristóteles (384-322 a.C), e apoiarem suas teorias com base nos estudos do monge polonês Copérnico, foram condenados um à Universal Inquisição do Santo Ofício e o outro pelo Tribunal do Santo Ofício, por heresia. Tiveram suas obras literárias científicas proibidas pela Igreja de serem publicadas e de circularem - incluídos no Index librorum prohibitorum ("Índice dos livros proibidos").


Giordando Bruno

      Giordano Bruno estudou profundamente a filosofia de Aristóteles e de São Tomás de Aquino, doutorando-se em Teologia. Foi defensor do humanismo, corrente filosófica do Renascimento, defendia o infinito cósmico e uma nova visão do homem. Defendeu teorias filosóficas que misturavam neoplatonismo místico e panteísmo. Acreditava que o Universo é infinito, que Deus é a alma universal do mundo e que todas as coisas materiais são manifestações deste princípio infinito. Ao contrário do que se pensa comumente, Giordano Bruno não foi queimado na fogueira por defender o heliocentrismo de Copérnico, suas teorias sobre o universo infinito e a multiplicidade dos sistemas siderais, no que rejeitou a teoria geocêntrica tradicional, ultrapassou a teoria heliocêntrica de Copérnico que ainda mantinha o universo finito com uma esfera de estrelas fixas. Um dos pontos chaves de sua cosmologia é, justamente, a tese do universo infinito e povoado por uma infinidade de estrelas, como o Sol, e por outros planetas, nos quais, assim como na Terra, existiria vida inteligente. São afirmações ousadas em uma época em que o pensamento teológico filosófico medieval era ainda predominante, e tinha como uma de suas peças básicas a astronomia de Ptolomeu que afirmava ser a Terra um ponto imóvel privilegiado, centro do movimento circular de todos os corpos celestes; teoria que afinava tanto com os textos bíblicos quanto com o pensamento racional aristotélico que a escolástica integrava num todo unitário. Bruno defendia a crença nos poderes humanos extraordinários, e enfrentou abertamente a Igreja Católica e seus preceitos. Num livro polêmico, "A Ceia das Cinzas", Bruno difama a Santa Ceia e os clérigos. Seguindo este pensamento, em uma mesma linha de diálogo ele se antecipa ao seu colega italiano o astrônomo Galileu Galilei sustentando que a Bíblia devia ser seguida pelos seus ensinamentos morais e não por suas implicações astronômicas. Por estas opiniões perigosas para a época, quando ainda reinava as teorias da escolástica, que Giordano Bruno foi condenado pela Inquisição. No último interrogatório não se submeteu, mostrando força e coragem. Por não abjurar, é condenado à morte na fogueira, mas antes de morrer queimado no Campo de' Fiori, ele afronta ainda mais uma vez seus inquisidores. Em 8 de fevereiro de 1600, obrigado a escutar ajoelhado a sentença de condenação à morte, lança aos seus juízes a histórica frase: Maiori forsan cum timore sententiam in me fertis quam ego accipiam, "Talvez sintam maior temor ao pronunciar esta sentença do que eu ao ouvi-la".


Galileu Galilei

      Galileu Galilei matriculou-se aos 17 anos na Universidade de Pisa, onde se revelou um brilhante aluno de medicina. No entanto desistiu de estudar medicina dois anos depois e decidiu estudar matemática com Otílio Ricci. Seu pai não desejava que o filho estudasse matemática clássica e assim Galileu abandonou a universidade em 1585, sem obter o título e foi para Florença, onde deu aulas particulares para sobreviver e continuou os seus estudos de matemática, mecânica e hidrostática. Em 1588, com o apoio de Guidobaldo del Monte, matemático e admirador da sua obra, Galileu foi nomeado para a cátedra de matemática na Universidade de Pisa. Também em Pisa realizou as suas famosas experiências de queda de corpos em planos inclinados. Nestas demonstra que a velocidade de queda não depende do peso, querendo demonstrar que Aristóteles estava errado quando afirmou que “a velocidade de um corpo em queda é razão direta de seu peso”.  Galileu aperfeiçoou a luneta, inventada pelo holandês Hans Lippershey (1570-1619) e em 1610 observou montanhas e crateras na Lua, manchas no Sol e quatro satélites em volta de Júpiter. Suas descobertas tiraram a importância do homem como centro do universo, maculando a perfeição dos céus. Estas descobertas contribuíram decisivamente na defesa do heliocentrismo. Contudo a principal contribuição de Galileu foi para o método científico, pois a ciência assentava numa metodologia aristotélica. Ao criticar abertamente a física aristotélica e o sistema geocêntrico de Ptolomeu (127-145 d.C.), o sábio italiano acabou recebendo sua primeira advertência formal da Inquisição, que condenava as teorias sobre o movimento da Terra e proibia o ensino do sistema heliocêntrico de Copérnico. Galileu não inventou o telescópio, porém foi o primeiro a fazer uso científico do telescópio, ao fazer observações astronómicas com ele. Entre 1613 e 1615, escreveu as famosas cartas copérnicas dirigidas a Benedetto Castelli, Pietro Dini e Cristina di Lorena. Suas ideias inovadoras, geraram muito escândalo nos meios conservadores, as passagens mais polémicas são aquelas em que transcreve alguns passos da Bíblia que deviam ser interpretados à luz do sistema heliocêntrico. E este começou a ser o princípio de um problema futuro. Não foi por causa do heliocentrismo nem qualquer interpretação bíblica que Galileu acabou condenado, seu caso foi por desobediência e por proferir conteúdos contra a doutrina católica, ao mesmo tempo em que muitos clérigos apoiaram o geocentrismo e outros o heliocentrismo. Após três meses de exaustivas sessões de interrogatório, Galileu foi acusado pelo Tribunal do Santo Ofício e, em 22 de junho de 1633, obrigado a renegar sua certeza de que a Terra não estava imóvel no espaço, utilizando a frase “abjuro, maldigo e detesto os citados erros e heresias”. Galileu teve sua obra proibida e foi condenado à prisão domiciliar perpétua. Galileu já estava velho e não foi encarcerado um único dia, nem foi torturado. Seu processo não se compara ao de Giordano Bruno, brutalmente torturado e queimado vivo em praça pública. Hoje, muitos o admiram por coisas que jamais fez, como inventar o telescópio, o termômetro ou o relógio de pêndulo. Sua maior contribuição à ciência está no estabelecimento das bases do pensamento científico moderno, o método experimental. É por isso que Galileu Galilei ainda é considerado por muitos como o "pai" da Física Moderna.

       Balanço da história
      Em 10 de Novembro de 1979, o Papa João Paulo II em seu discurso à Pontifícia Academia das Ciências por ocasião do primeiro centenário do nascimento de albert einstein falou a respeito de Galileu :  
"A grandeza de Galileu é a todos conhecida, como a de Einstein; mas diferentemente deste; que nós honramos hoje diante do Colégio Cardinalício no palácio apostólico, o primeiro muito teve que sofrer".  "Seja-me permitido, Senhores, submeter à vossa atenção e reflexão alguns pontos que me parecem importantes para colocar de novo na sua verdadeira luz a questão de Galileu, em que as concordâncias entre religião e ciência são mais numerosas, e sobretudo mais importantes, que as incompreensões de que nasceu o conflito áspero e doloroso que se prolongou durante os séculos seguintes."
      Em 2000, no curso de uma cerimônia penitencial sem precedentes na História, João Paulo II pediu oficialmente perdão a Deus, em nome da Santa Igreja, pelos pecados cometidos por seus filhos desde a sua fundação há dois mil anos. Ao propor uma confissão de culpas, a Igreja o faz “não enquanto sujeito de pecado, mas enquanto assume com solidariedade materna o peso da culpa de seus filhos”. O pedido de perdão da Igreja “não deve ser entendido como renegação de sua história bimilenar, rica de méritos nos campos da caridade, de cultura e de santidade”.
"Caso contrário, ou seja, se tais balizas intelectuais forem omitidas, corre-se o risco de, implicitamente, “descanonizar”..."...um São Roberto Bellarmino, por ter presidido o tribunal que entregou Giordano Bruno à fogueira do braço secular".

              Se antes, a Igreja tanto temia que as teorias contestadoras, porém reveladoras, destes dois cientistas comprometessem a posição do homem no universo, com um pouco mais de reflexão diante das incríveis descobertas feita por eles, teria chegado à conclusão dos extraordinários poderes humanos; Galileu e Giordano seriam os exemplos, por demonstrarem que o homem é a mais importante obra de Deus, ao que somos dotados e mais próximos da inteligência universal, e ainda, somos parte da sabedoria de Deus.

Referências:
zenite.nu 
antroposmoderno.com 
catolicismo.com

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Postagens populares

Quem sou eu

Minha foto
Graduado em Economia pela Faculdade de Ciências Econômicas do Instituto Vianna Júnior, Juiz de Fora - MG. Especialização em Ciências Humanas pelo Instituto de Ciência Humanas - ICH, Universidade Federal de Juiz de Fora - UFJF.